Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompestee
sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescênciade
viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enloqueceu, enloquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais gravedo que o ato sem continuação,
o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
(não vou negar o que é tão claro...preciso de um tempo,conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.quando quis tirar a máscara,Estava pegada à cara.quando a tirei e me vi ao espelho,já tinha envelhecido.)
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Basta de Queixas

Jorge Forbes
Texto publicado no livro "Você quer o que deseja?"
Todo mundo se queixa o tempo inteiro. Do tempo: um dia do calor, outro dia do frio. Do trabalho: porque é muito, ou porque é pouco. Do carinho: “que frieza”, ou “que melação”. Da prova: “dificílima”, ou “fácil demais”. E dos políticos, e da mulher, e do marido, e dos filhos, e dos tios, avós, primos; do pai e da mãe, enfim, de ter nascido. A queixa é solidária, serve como motivo de conversa, desde o espremido elevador até o vasto salão. A queixa é o motor de união dos grupos, é sopa de cultura social; quem tem uma queixa sempre encontra um parceiro. A queixa chega a ser a própria pessoa, seu carimbo, sua identidade: “Eu sou a minha queixa”, poderia ser dito.
A queixa deveria ser a justa expressão de uma dor ou de um mal-estar, mas raramente ocorre assim. É habitual que a expressão da queixa exagere em muito a dor, até o ponto em que esta, a dor, acaba se conformando ao exagero da queixa, aumentando o sofrimento. É comum as pessoas acreditarem tanto em suas lamúrias que acabam emprestando seu corpo, ficando doentes, para comprovar o que dizem.
A causa primordial de toda queixa é a preguiça de viver. Viver dá trabalho, uma vez que a cada minuto surge um fato novo, uma surpresa, um inesperado que exige correção de rota na vida. Se não for possível passar por cima ou desconhecer o empecilho, menosprezando o acontecimento que perturba a inércia de cada um, surge a queixa, a imediata vontade de culpar alguém que pode ir aumentando até o ponto em que a pessoa chega a se convencer paranoicamente que todos estão contra ela, que o mundo não a compreende e por isso ela é infeliz, pois nada que faz dá certo, enquanto outros, com menos qualidades, obtém sucesso. Ouvimos destes aquele lamento corriqueiro, auto-elogioso: “acho que sou bom ou boa demais para esse mundo, tenho que aprender a ser menos honesto e mais agressivo...” Conclusão: se não fossem os outros, ele, o queixante, seria maravilhoso. Por isso, toda queixa é narcísica.
Temos que acrescentar que a queixa não surge só de uma dor ou de um desassossego, mas também quando se consegue um tento, uma realização. Aí a queixa serve de proteção à inveja do outro – sempre os outros ! ... – e tal qual uma criança que esconde os ovos de páscoa até o outro ano, o queixante não declara sua felicidade para que ela não acabe na voracidade dos parceiros podendo ele curti-la em seu canto, escondido, até o ano que vem, quando o coelhinho passa de novo.
Em síntese, três pontos: a queixa é um fechamento sobre si mesmo, uma recusa da realidade e um desconhecimento da dor real. Não confundamos: é importante separar a queixa narcísica da reivindicação justa, mas isso é outro capítulo. Aliás, é comum o queixoso se valer da nobreza das justas reivindicações sociais para mascarar seu exagerado amor próprio.
Um momento fundamental em todo tratamento pela psicanálise é o dia em que o analisante descobre que não dá mais para se queixar. Não que as dificuldades tenham desaparecido por encanto, mas que o “tirem isso de mim”, base de toda queixa, perde seu vigor, revela-se para a pessoa todo o seu aspecto fantasioso. É duro não ter para quem se queixar, não ter nenhum bispo, um departamento de defesa dos vivos como tem o dos consumidores. A pessoa pode perder o rumo, não saber o que vai fazer, nem mesmo saber quem é.
Nesse ponto, a condução do tratamento há de ser precisa: há que se ajustar a palavra à vida, conciliar a palavra com o corpo, fazer da palavra a própria pele até alcançar o almejado sentir-se “bem na própria pele”. Também será necessário suportar o inexorável sem se lastimar e abandonar a rigidez do queixume pela elegância da dança com o novo.
Mais importante que uma política de acordos, que é feita a partir de concessões de posições individuais, é estar em acordo com o movimento das surpresas da vida, dos encontros bons ou maus. E tudo isto sem resignação, mas com o entusiasmo da aposta. Basta de queixas.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
O Cheiro do Ralo, Heitor Dhalia (2007)

Formato: rmvb
Áudio: Português
Legendas: S/L
Duração: 1:40
Tamanho: 325 MB
Dividido em 04 Partes
Servidor: Rapidshare
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Screen Shots:



Sinopse: Lourenço (Selton Mello) é o dono de uma loja que compra objetos usados. Aos poucos ele desenvolve um jogo com seus clientes, trocando a frieza pelo prazer que sente ao explorá-los, já que sempre estão em sérias dificuldades financeiras. Ao mesmo tempo Lourenço passa a ver as pessoas como se estivessem à venda, identificando-as através de uma característica ou um objeto que lhe é oferecido. Incomodado com o permanente e fedorento cheiro do ralo que existe em sua loja, Lourenço vê seu mundo ruir quando é obrigado a se relacionar com uma das pessoas que julgava controlar.
Elenco: Selton Mello (Lourenço)
Paula Braun (Garçonete)
Lourenço Mutarelli (Segurança)
Flávio Bauraqui (Homem da caixa de música)
Fabiana Guglielmetti (Noiva)
Sílvia Lourenço (Viciada)
Martha Meola (Secretária)
Suzana Alves (Apresentadora de vídeo de ginástica)
Paulo Alves (PM)
Negro Rico (PM)
Gustavo Trestini (Tenente)
Roberto Audio (Homem da flauta)
Boi (Mendigo)
Alice Braga (Garçonete)
Tobias Vai Vai (Caixa da lanchonete)
Mário Shoemberger (Homem do relógio)
Calico (Homem da perna)
Jorge Cerruti (Homem do olho de vidro)
Milhem Cortaz (Encanador)
Hossein Minussi (Encanador)
Álvaro Muniz (Encanador)
Wolney de Assis (Homem da caneta)
Pedro Vicente (Homem dos livros)
Hugo Villavicenzio (Homem do gramofone)
Estevan (Homem do autógrafo)
Abrahão Farc (Homem dos soldadinhos)
André Frateschi (Homem do vodu)
Luciano Gatti (Homem do livro)
Waldir Grillo (Homem do ancinho)
Xico Sá (Homem do gênio da garrafa)
Morelli (Homem do violino)
Dionísio Neto (Homem dos discos)
Nivaldo (Homem da gaiola)
Zé Pineiro (Homem do revólver)
Augusto Pompeo (Homem do faqueiro)
Ariel Moshe (Homem das cédulas)
Morgani (Homem abertura)
Lorena Lobato (Mulher casada)
Fernando Macario (Entregador de pizza)
Leonardo Medeiros (Jesus Kid)
Paulo César Pereio (Pai da noiva - voz)
terça-feira, 29 de julho de 2008
UM CARA CHAMADO VAL



Criado em 2001 para um fanzine da Gibiteca de Londrina (edição engavetada até hoje), o personagem VAL foi publicado pela primeira vez em janeiro de 2003, na edição nº05 da revista independente AREIA HOSTIL. Desde então, o personagem ganhou excelente repercussão pelos leitores da revista impressa e também via internet.
Vagner Francisco criador do ácido personagem, reuniu 5 das melhores HQs de seu personagem ao longo dos anos e mais 3 inéditas, lançando neste mês a edição VAL #1 (32 págs. em p&b, capa colorida, formato 147x210mm), sua primeira revista independente como autor e editor .
Na revista, muito bem editada pelo próprio Vagner, podemos apreciar as HQs: “One Last Cigarette”, com desenhos de Israel Gusmão, onde VAL resolve comprar um novo maço de cigarros num lugar não muito... Comum. Os traços de Israel casam-se perfeitamente com o roteiro de Vagner, tornando uma “simples” história em uma das melhores da revista, particularmente; “A Busca”, com traços do grande amigo Anderson Cossa, VAL decide se tornar um roteirista de HQs para trabalhar na revista Areia Hostil, e enfrentará quaisquer empecilhos para realizar sua vontade. Aqui vemos o quanto o cara é determinado, e a história traz ainda muitas participações especiais!
Em “Na sala de Espera”, novamente ilustrada por Cossa, e “Eu sei que o momento parece estranho, mas não se faz mais homens como antigamente”, com desenhos de Denis Pacher, VAL derrama seu afiado ponto de vista em situações hipotéticas sobre o relacionamento de Clark e Lois Lane e ser homem de verdade, respectivamente; “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, com traços de Gerson Witte, VAL discute com ninguém mais ninguém menos do que Tom Hanks, sobre a verdade por trás da vida alienígena entre nós; “...Eu sou lenda!”, com desenhos de Nel, VAL está no futuro e enfrenta uma leva de zumbis sedentos... Mas não espere esses zumbis tipicamente comuns! Esses são muito mais apavorantes, garanto! A pequena HQ “Mais uma do Val”, novamente assinada por Anderson Cossa, VAL reflete sobre a influência da televisão sobre o dia-a-dia.
E, pra fechar a edição com chave de ouro, temos a republicação da HQ de sua estréia, em “Um cara chamado Val”, onde Vagner também atua como desenhista – e manda muito bem!
VAL #1 custa apenas R$ 3,00 e pode ser pedida pelo endereço: A/C: Vagner Francisco – Rua Asa Norte, 222 – Cambé II – CEP 86191-180 – Cambé/PR ou através do e-mail:
vagnerfranc@gmail.com
* Comunidade do personagem no Orkut:
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=26821959
* Conheça o fotolog de Vagner Francisco, onde vocês poderão conhecer melhor um pouco mais de seu trabalho:
http://fotolog.terra.com.br/vagnerfrancisco
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Amores Silenciosos

Contardo Calligaris
FAZER E RECEBER declarações de amor é quase sempre prazeroso. O mesmo vale, aliás, para todos os sentimentos: mesmo quando dizemos a alguém, olho no olho, "Eu te odeio", o medo da brutalidade de nossas palavras não exclui uma forma selvagem de prazer.De fato, há um prazer na própria intensidade dos sentimentos; por isso, desconfio um pouco das palavras com as quais os manifestamos. Tomando o exemplo do amor, nunca sei se a gente se declara apaixonado porque, de fato, ama ou, então, diz que está apaixonado pelo prazer de se apaixonar.Simplificando, há duas grandes categorias de expressões: constatativas e performativas.Se digo "Está chovendo", a frase pode ser verdadeira se estamos num dia de chuva ou falsa se faz sol; de qualquer forma, mentindo ou não, é uma frase que descreve, constata um fato que não depende dela.Se digo "Eu declaro a guerra", minha declaração será legítima se eu for imperador ou será um capricho da imaginação se eu for simples cidadão; de qualquer forma, capricho ou não, é uma frase que não constata, mas produz (ou quer produzir) um fato. Se eu tiver a autoridade necessária, a guerra estará declarada porque eu disse que declarei a guerra. Minha "performance" discursiva é o próprio acontecimento do qual se trata (a declaração de guerra).Pois bem, nunca sei se as declarações de amor são constatativas ("Digo que amo porque constato que amo") ou performativas ("Aca- bo amando à força de dizer que amo"). E isso se aplica à maioria dos sentimentos.Recentemente, uma jovem, por quem tenho estima e carinho, confiava-me sua dor pela separação que ela estava vivendo. Ao escutá-la, eu pensava que expressar seus sentimentos devia ser, para ela, um alívio, mas que, de uma certa forma, seria melhor se ela não falasse. Por quê?
Justamente, era como se a falta do namorado (de quem ela tinha se separado por várias e boas razões), a sensação de perda etc. fossem intensificadas por suas palavras, e talvez mais que intensificadas: produzidas.É uma experiência comum: externamos nossos sentimentos para vivê-los mais intensamente -para encontrar as lágrimas que, sem isso, não jorrariam ou a alegria que talvez, sem isso, fosse menor. Nada contra: sou a favor da intensidade das experiências, mesmo das dolorosas. Mas há dois problemas.O primeiro é que o entusiasmo com o qual expressamos nossos sentimentos pode simplificá-los. Ao declarar meu amor, por exemplo, esqueço conflitos e nuances. No entusiasmo do "te amo", deixo de lado complementos incômodos ("Te amo, assim como amo outras e outros" ou "Te amo, aqui, agora, só sob este céu") e adversativas que atrapalhariam a declaração com o peso do passado ou a urgência de sonhos nos quais o amor que declaro não se enquadra.O segundo problema é que nossa verborragia amorosa atropela o outro. A complexidade de seus sentimentos se perde na simplificação dos nossos, e sua resposta ("Também te amo"), de repente, não vale mais nada ("Eu disse primeiro").Por isso, no fundo, meu ideal de relação amorosa é silencioso, contido, pudico.Para contrabalançar os romances e filmes em que o amor triunfa ao ser dito e redito, como um performativo que inventa e força o sentimento, sugiro dois extraordinários romances breves, de Alessandro Baricco, o escritor italiano que estará na Festa Literária Internacional de Parati, na próxima semana: "Seda" e "Sem Sangue" (ambos Companhia das Letras).
Nos dois, a intensidade do amor se impõe com uma extrema economia de palavras ("Sem Sangue") ou sem palavra nenhuma ("Seda"). Nos dois, o silêncio permite que o amor vingue -apesar de ele não poder ser dito ou talvez por isso mesmo.No caso de "Seda": te amo em silêncio porque te encontro ao limite extremo de uma viagem ao fim do mundo, indissociavelmente ligada a um outro, e nem sei falar tua língua.Você me ama em silêncio porque sou outro: uma aparição efêmera, uma ave migrante.No caso de "Sem Sangue": te amo, e não há como falar disso porque te dei e te tirei a vida. E você me ama pelas mesmas razões pelas quais poderia e deveria querer me matar (os leitores entenderão).Nos dois romances, a ausência da fala amorosa acaba sendo um presente que os amantes se fazem reciprocamente, uma forma extrema (e freqüentemente perdida) de respeito pela complexidade de nossos sentimentos e dos sentimentos do outro que amamos.
Folha de São Paulo, quinta-feira, 26 de junho de 2008
sexta-feira, 20 de junho de 2008
ABRA OS OLHOS [Suspense / Ficção-Científica / Drama]

Título original: Abre los ojos
Duração: 1h 53Min
Formato: RMVB
Idioma: Espanhol
Legendas: Português embutidas
Tamanho: 370 MB
(Dividido em 4 partes)
Servidor: Rapidshare
http://rapidshare.com/files/66099511/Abre.los.Ojos._Open.Your.Eyes_.1997.nehemias.part1.rar http://rapidshare.com/files/66311874/Abre.los.Ojos._Open.Your.Eyes_.1997.nehemias.part2.rar http://rapidshare.com/files/66343347/Abre.los.Ojos._Open.Your.Eyes_.1997.nehemias.part3.rar http://rapidshare.com/files/66577835/Abre.los.Ojos._Open.Your.Eyes_.1997.nehemias.part4.rar
Sinopse: Um playboy mulherengo tem sua vida destruída por uma ex-amante, que não aceita vê-lo com outra namorada. Ela causa um trágico acidente, onde acaba morrendo e desfigurando completamente o rosto do ex-namorado. Dirigido por Alejandro Amenábar (Os Outros) e com Eduardo Noriega e Penélope Cruz no elenco. (O filme "Vanilla Sky" é um remake de "Abre los ojos".)
Elenco: Eduardo Noriega (César)
Penélope Cruz (Sofia)
Chete Lara (Antonio)
Fele Martínez (Pelayo)
Najwa Nimri (Nuria)
Gérard Barray (Duvernois)
Miguel Palenzuela (Comissário)
Pedro Miguel Martínez (Médico-chefe)
Ficha: Título Original: Abre los ojos
Ano de Lançamento (Espanha): 1997
Direção: Alejandro Amenábar
Roteiro: Alejandro Amenábar e Mateo Gil
Efeitos Especiais: Molinare
Curiosidades:
- Refilmado como Vanilla Sky (2001).
- A atriz Penélope Cruz, que interpreta Sofia, representou a mesma personagem na refilmagem americana do longa-metragem.
- O Filme foi distribuído no Brasil com o nome "Preso na escuridão", mas foi exibido na TV aberta brasileira com o título "Abra os Olhos" (que, convenhamos, é mais coerente).
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Walter Salles
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Sobre idéias e fatos.
Sei muito bem que as idéias são essenciais para que o mundo evolua. Os fatos que aí estão – objetos, formas de estrutura social, relações empresariais e familiares etc. – um dia foram idéias nas cabeças das pessoas. As idéias são abstrações que antecedem os fatos novos. Elas são inspiradas nos fatos que existem e a partir deles imaginamos algo que pudesse substituí-los com alguma vantagem. Um exemplo banal: tínhamos um isqueiro antigo, daqueles cuja combustão se fazia por fluido tipo gasolina; de repente imaginamos um outro a gás e ainda por cima suficientemente simples para poder ser descartável. Ou seja, partimos de um isqueiro real; depois temos uma idéia a respeito de um outro que poderia ser mais eficiente do que ele; a terceira fase consiste em tentar transforma-la em uma nova realidade, um novo isqueiro. A idéia intermediou a transição de uma realidade pior para outra melhor.
É assim que vejo a grande utilidade das idéias: elas têm que nos ajudar a avançar no plano da realidade e não substituir o real por hipóteses ou sonhos. O problema é que a passagem de uma realidade pior para outra melhor, sempre intermediada por alguma idéia nova que se inspira na antiga realidade, por vezes esbarra em grandes dificuldades. Isso é particularmente verdadeiro quando estamos nos referindo a assuntos humanos. Ou seja, quando as novas idéias implicam em alterações nas formas tradicionais que envolvem a forma como temos vivido. Um exemplo dentre tantos: os relacionamentos amorosos sempre foram fundados em diferenças de temperamento. A realidade era baseada na tese de que a boa relação era complementar. As idéias defendiam esta mesma realidade. De repente surge uma outra idéia que mostra que as boas relações são mesmo as que se estabelecem entre pessoas parecidas. A nova idéia nos convence e aí temos que tentar atualizar nossa vida. Isso pode implicar em termos que nos separar, buscar novos parceiros, esbarrar com dificuldades relacionadas com um desejo sexual menos intenso, superar as dificuldades relacionadas com o medo da felicidade etc.
Muitas pessoas não se vêem com forças para todas estas “atualizações” de suas vidas práticas. Passam a defender idéias diferentes daquelas que praticam. Ou então passam a ser contra idéias apenas para se defender de suas dificuldades. De todo o modo, as idéias passam a não preencher sua função de ajudar a modificar a realidade. Elas se transformam em palavras vazias. Outro exemplo: aprendemos que o verdadeiro orgasmo feminino é essencialmente relacionado com a estimulação do clitóris. Muitas mulheres reconhecem que isso é verdadeiro, mas não querem dizer isso a seus parceiros por medo de magoá-los, já que eles parecem não aceitar este novo modo de ver a relação sexual. Passam a fingir um orgasmo vaginal que não existe e com isso confirmam uma hipótese equivocada dos homens que pedem cada vez mais este tipo de resposta.
Isso sem falar daquelas idéias totalmente idealizadas, que tratam da possibilidade de reabilitar delinqüentes dando a eles bastante amor. Ou então que seremos capazes de construir uma sociedade mais justa baseada nos ideais humanitários dos intelectuais e das pessoas bem intencionadas. Que o bem acabará por vencer o mal. Belas idéias, todas elas falsas, porque inviáveis. A idéia é falsa quando ela não corresponde aos fatos e não irá jamais corresponder a eles. Elas servem para apaziguar a consciência de algumas pessoas que, ao defendê-las, se sentem com o direito de continuar a usufruir dos privilégios que sempre tiveram – o exemplo maior é o do milionário que defende o socialismo, mas que continua a viver sua vida de nababo. A verdade é que uma pessoa que acredita numa ordem social mais justa pode viver de uma forma compatível com suas idéias desde já. Ninguém é obrigado a viver num palácio só porque tem dinheiro para isso. Pode muito bem viver num pequeno apartamento de classe média e doar o dinheiro para uma instituição política que defenda os direitos dos menos favorecidos. Ou então fazer doações para hospitais, universidades etc.
Quem acredita em suas idéias, tem o dever de viver de acordo com elas. Os religiosos e crentes não podem ter amantes. O verdadeiro intelectual não pode sabotar alguém que detenha um saber maior já que seu compromisso maior tem que ser com a verdade e não com sua vaidade pessoal. E assim por diante. Se vivermos de acordo com nossas idéias, as idéias deixarão de ser idéias e passarão a ser fatos. Se não acontecer isso e continuamos a viver de um jeito A e a defender idéias B, estamos diante de um blá, blá, blá infrutífero, vago, inútil e que só pode estar a serviço de apaziguar sentimentos de vergonha ou culpa de pessoas intelectualmente pouco honestas. (Flavio Gikovate)
primeiro post dedicado ao Ska-P por viverem de acordo com suas idéias.
É assim que vejo a grande utilidade das idéias: elas têm que nos ajudar a avançar no plano da realidade e não substituir o real por hipóteses ou sonhos. O problema é que a passagem de uma realidade pior para outra melhor, sempre intermediada por alguma idéia nova que se inspira na antiga realidade, por vezes esbarra em grandes dificuldades. Isso é particularmente verdadeiro quando estamos nos referindo a assuntos humanos. Ou seja, quando as novas idéias implicam em alterações nas formas tradicionais que envolvem a forma como temos vivido. Um exemplo dentre tantos: os relacionamentos amorosos sempre foram fundados em diferenças de temperamento. A realidade era baseada na tese de que a boa relação era complementar. As idéias defendiam esta mesma realidade. De repente surge uma outra idéia que mostra que as boas relações são mesmo as que se estabelecem entre pessoas parecidas. A nova idéia nos convence e aí temos que tentar atualizar nossa vida. Isso pode implicar em termos que nos separar, buscar novos parceiros, esbarrar com dificuldades relacionadas com um desejo sexual menos intenso, superar as dificuldades relacionadas com o medo da felicidade etc.
Muitas pessoas não se vêem com forças para todas estas “atualizações” de suas vidas práticas. Passam a defender idéias diferentes daquelas que praticam. Ou então passam a ser contra idéias apenas para se defender de suas dificuldades. De todo o modo, as idéias passam a não preencher sua função de ajudar a modificar a realidade. Elas se transformam em palavras vazias. Outro exemplo: aprendemos que o verdadeiro orgasmo feminino é essencialmente relacionado com a estimulação do clitóris. Muitas mulheres reconhecem que isso é verdadeiro, mas não querem dizer isso a seus parceiros por medo de magoá-los, já que eles parecem não aceitar este novo modo de ver a relação sexual. Passam a fingir um orgasmo vaginal que não existe e com isso confirmam uma hipótese equivocada dos homens que pedem cada vez mais este tipo de resposta.
Isso sem falar daquelas idéias totalmente idealizadas, que tratam da possibilidade de reabilitar delinqüentes dando a eles bastante amor. Ou então que seremos capazes de construir uma sociedade mais justa baseada nos ideais humanitários dos intelectuais e das pessoas bem intencionadas. Que o bem acabará por vencer o mal. Belas idéias, todas elas falsas, porque inviáveis. A idéia é falsa quando ela não corresponde aos fatos e não irá jamais corresponder a eles. Elas servem para apaziguar a consciência de algumas pessoas que, ao defendê-las, se sentem com o direito de continuar a usufruir dos privilégios que sempre tiveram – o exemplo maior é o do milionário que defende o socialismo, mas que continua a viver sua vida de nababo. A verdade é que uma pessoa que acredita numa ordem social mais justa pode viver de uma forma compatível com suas idéias desde já. Ninguém é obrigado a viver num palácio só porque tem dinheiro para isso. Pode muito bem viver num pequeno apartamento de classe média e doar o dinheiro para uma instituição política que defenda os direitos dos menos favorecidos. Ou então fazer doações para hospitais, universidades etc.
Quem acredita em suas idéias, tem o dever de viver de acordo com elas. Os religiosos e crentes não podem ter amantes. O verdadeiro intelectual não pode sabotar alguém que detenha um saber maior já que seu compromisso maior tem que ser com a verdade e não com sua vaidade pessoal. E assim por diante. Se vivermos de acordo com nossas idéias, as idéias deixarão de ser idéias e passarão a ser fatos. Se não acontecer isso e continuamos a viver de um jeito A e a defender idéias B, estamos diante de um blá, blá, blá infrutífero, vago, inútil e que só pode estar a serviço de apaziguar sentimentos de vergonha ou culpa de pessoas intelectualmente pouco honestas. (Flavio Gikovate)
primeiro post dedicado ao Ska-P por viverem de acordo com suas idéias.
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